domingo, 10 de dezembro de 2017

Poema periférico para João Moreira


Poema periférico para João Moreira

Há uma Charneca na Terra da Verdade
Uma Lezíria e um Bairro com moínhos
Nesse lugar entre o Campo e Cidade
Chega-se a todo o lado sem caminhos.
Os lugares onde afinal cada imagem
Das velas do moinho como um veleiro
São o convite recusado a uma viagem
No circo a dar a volta ao Mundo inteiro.
Charneca, Lezíria e Bairro num sorriso
Ribatejo um grande amor sem medida
Saiu do seu lugar quando foi preciso
Mas voltou a Santarém numa corrida.
Agora está sem moinho num outeiro
Onde o vento nos empurra todo o dia
Logo vai voltar disfarçado de moleiro
Com os sacos de farinha e de alegria.   

José do Carmo Francisco    

(Fotografia de autor desconhecido)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Poema periférico para o homem do chá


Poema periférico para o homem do chá

O médico conhecido e o escritor obscuro
Bebem chávenas de chá verde na esplanada
E quem as prepara é um homem triste.
Entre cães activos e telemóveis desligados
A tosse, os charutos e as outras coisas más 
A tarde declina nas duas chávenas de chá.
A caminho do comboio já bem de noite
Ninguém pode reparar naquelas lágrimas
Misturadas com estas folhas castanhas.
Com uma filha no outro lado do Mundo
E outra apenas a duas horas de avião
Como eu compreendo o homem do chá.
Mesmo sem saber sequer seu nome
Sinto o homem do chá como um irmão
Na saudade húmida da filha distante.
Só o vento a arrastar folhas no passeio
Me parece neutral neste Outono frio
Em que os sentimentos tomam partido.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Segunda balada da Rua Serpa Pinto


Segunda balada da Rua Serpa Pinto

Volto hoje à Serpa Pinto
Rua de muitas esquinas
Inda que digam que minto
Só vejo mulheres-meninas.
Lá vem Susana Silveira
Vale das Fontes sua terra
Hoje perdeu a carreira
Coração em pé de guerra.
Ontem era uma criança
Hoje uma filha nos braços
O tempo nunca se cansa
Há sempre novos espaços.
Lá vem Emília Isabel
Entre a neblina e o fumo
Passa à porta do quartel
São conflitos de consumo.
Lá no Palácio Landal
Onde a vida desagua
Lutam o Bem e o Mal
Cada um fica na sua.
Minha rica Serpa Pinto
Numa ilusão de cinema
Tudo aquilo que sinto
Nunca cabe no poema.

José do Carmo Francisco

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Balada do Fórum Romeu Correia em Almada


Balada do Fórum Romeu Correia em Almada

Como se fosse uma ilha
Rodeada só pelo mar
Lisboa é uma maravilha
Seja qual for o lugar.
No barco dos cacilheiros
(Deve dizer-se navio)
Últimos são primeiros
Do outro lado do rio.
No meio da travessia
Se a distância é metade
O olhar em nostalgia
Organiza uma saudade.
Romeu Correia dizia
Na tarde da entrevista
A Escola onde aprendia
Não cabia na Revista.
Nessas colectividades
Que eram como um curso
A memória das cidades
Entrava no seu discurso.
Se descia a Rua Augusta
Todo o tempo era contado
Construiu-se à sua custa
E nunca ficou acabado. 


José do Carmo Francisco 

domingo, 5 de novembro de 2017

Canção para um jogo que não termina


Canção para um jogo que não termina

Cinquenta anos depois
Um retrato no Jamor
Celtic e Inter são dois
Na memória do fervor.
Houve o balde de água fria
Logo aos sete minutos
Mas no fim veio a alegria
De escoceses resolutos.
O número onze escocês
Espatifou toda a defesa
Conquistou o português
Entre aplauso e surpresa.
No meio da multidão
O homem tinha um lugar
Com o clube no coração
Não parava de cantar.
Quem diria quem diria
Um jogo que não tem fim
Que a força da nostalgia
Nos dava um retrato assim.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Canção breve para Catarina


Canção breve para Catarina

Vejo uma luz tropical
No olhar de Catarina
Na varanda da capital
Nasce uma nova colina.
Se a paisagem ameaça
Um violento aguaceiro
As nuvens da rua à praça
Vão instalar um roteiro.
Ficando a tempestade
No horizonte do dia
Estou a olhar a cidade
Na luz que eu não sabia.
Na paisagem na surpresa
Entre o futuro e a ruína
Há um rumor de beleza
Perfil de mulher-menina.

José do Carmo Francisco 

(fotografia de autor desconhecido)


domingo, 15 de outubro de 2017

Balada para uma fotografia de 1978


Balada para uma fotografia de 1978

Minha filha Ana Maria
Quando era pequenina
Ficou na fotografia
Lá em Santa Catarina.
Entre a avó e o avô
Nessa rua sossegada
O que era e o que sou
Está tudo, não falta nada.
Quarenta anos passados
O tempo quase que voa
Há luz por todos os lados
Como se fosse em Lisboa.
Seus filhos Lucas e Tomás
Meus netos junto ao Tamisa
Procuram saúde e paz
Tudo aquilo que se precisa.
Nos mistérios desta vida
Entre sonhos e escuridão
Não passa despercebida
Toda a nossa situação.
Papagaios no planalto
Com crianças e seus pais
Num tempo de sobressalto
Há horas de nunca mais.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de autor desconhecido)

domingo, 1 de outubro de 2017

Balada para Carlos Teixeira em Évora


Balada para Carlos Teixeira em Évora

Na Rua dos Mercadores
Ao lado da do Raimundo
Havia os vasos de flores
O cheiro era profundo.
Nos cafés daquela Praça
Eu ficava na procura
Da medalha da desgraça
Na poesia mais pura.
Feita de frio no Inverno
E de calor no Verão
O tempo não era eterno
Perdi o meu coração.
Entre o sonho e a saudade
Naquilo que eu escrevia
Estava o selo da cidade 
No poema a cada dia.
Entre muralhas e ruas
Passei parte da vida
Entre a uma e as duas
A sombra era perdida.
Ah! O Hospital Militar
Quem diria, quem diria
Que eu viria a cantar
A luz dessa nostalgia.
Dum cabo miliciano
Noventa escudos o pré
Furriel ao fim do ano
A fingir o que não é. 
Na luz da cal das paredes
Ou na chuva miudinha
Tempo do guarda-redes
Era a solidão sozinha.
Lá vai o Carlos Teixeira
A jogar pelo Lusitano
Desta ou doutra maneira
Vai se o golo do ano.
Vila Franca, Rosa Branca
Diz a canção popular
Na Escola de Vila Franca
Andámos nós a estudar.


José do Carmo Francisco  

(Óleo de Pablo Picasso)

sábado, 23 de setembro de 2017

Poema periférico para Armando Silva Carvalho


Poema periférico para Armando Silva Carvalho

Os campinos agora usam telemóvel
E jeeps velozes nas lezírias e charnecas
Onde perseguem touros tresmalhados.
Aqueles rapazes do balcão dessa tasca
Onde se vendia o seu tabaco, fugiram
E já não são rapazes nem falam assim.
Hoje os treinadores não se discutem
Nem as tácticas para vencer jogos
Por causa das apostas dos chineses.
Já não se diz o prélio nem o ferrolho
Apenas fio de jogo e linhas de passe
Por onde circula o esférico da alma.
Esperam de nós domingos da verdade
Vencer o adversário entre serra e mar
Para assim trocar a morte pela vida.

José do Carmo Francisco 

(Fotografia de autor desconhecido)

sábado, 16 de setembro de 2017

Poema Mais periférico



 Poema mais periférico     (para Fernando Venâncio)

Uma colheita perdida de palavras
Em «Os esquemas de Fradique»
Na prateleira dum alfarrabista.
No país que não lê os seus autores
Não admira este gesto das élites
Quando o livro fica fora do circuito.
Mas alguém o compra para o ler
Dezoito nos depois da dedicatória
Num Mundo que não pára de mudar. 
Periférico, marginal, sem as atenções
O livro está por fim no seu lugar
De onde parece nunca ter saído.

José do Carmo Francisco

(Ilustração de Walter Humphrey)